Banda Suricato, no Circo Voador[/caption]
OUTROEU
A televisão continua sendo um grande difusor musical, principalmente através dos reality shows de bandas que nos trazem as versões mais inusitadas de músicas famosas junto a tesouros autorais escondidos. Foi no programa SuperStar que tanto a Suricato quanto a OutroEu ficaram conhecidos no Brasil.
Mesmo sem ter lançado CD, a banda de apenas um ano e meio possui um repertório de tirar o fôlego, mesclando músicas próprias a covers completamente distintos das músicas originais, em um estilo único. Dentre as já conhecidas versões de "Budapest", "Dona Cila" e "Hold Back The River", também foram surpreendentemente impressionantes as performances de "Sexual Healing" e "Aquarela". Em resumo: possuem a maestria de transformar canções que já são belas em espetaculares.
E não é para menos. Fica mais fácil aprender o ofício quando se tem bons professores. As influências da OutroEu, segundo Mike Túlio e Fil Lopes (vocais e baixo, respectivamente) vão de John Mayer, James Morisson, Jamie Cullum, ColdPlay, James Taylor, internacionalmente, aos brasileiros Maria Gadú, Los Hermanos, Djavan, Rubel e Caetano Veloso. "Teve um lance com Caetano, ele chegou a conversar comigo", contou Mike. "Tava na praia, tocando ukulele, ele chegou, do nada, falando comigo! Ele sempre foi referência pra mim, então entendi como um sinal pra continuar na música", lembrou.
Os amigos se perdem em meio às referências. "São muitas", disse Fil. Questionados sobre com quem gostariam de tocar, ponderaram, mas chegaram a um consenso: James Bay, Chris Martin [do ColdPlay] e John Mayer.
Os amigos descobriram no reality show o gênero que poderia defini-los. "Antes, eu demorei um pouco pra entender o que era o folk. Era tudo o que eu gostava, mas não tinha um nome", explicou o vocalista. Eles compartilham com Rodrigo a vontade de fortalecer a cena folk no Brasil. "Eu acho incrível, fazer um show com o Suricato, que é uma banda absurda, também de amigos nossos. Tem a galera da Pagan John, o pessoal que tá tocando aí também, hoje… é toda uma coisa que a gente quer estimular", finalizou Mike.
https://www.youtube.com/watch?v=Ri9g1CI8sqY
Além de shows, a Outroeu está se preparando para lançar o primeiro álbum ainda nesse mês de abril. O nome ainda não foi revelado e até em relação aos próximos singles eles fazem mistério - só para aumentar a ansiedade entre os fãs.
CAFÉ IRLANDA
Simpáticos e despretensiosos, quem fez a abertura e a comunicação entre os shows no Folk Fest foram os gênios da Café Irlanda. Eles trazem ao Brasil uma outra vertente do folk, que surgiu na Irlanda. Flauta, violão, violino e até uma viela de roda misturam a música de origem celta com baião, forró, e pasmem - até um funk. Um tímido instrumental de "Baile de Favela" soaria imperceptível no meio do show para quem não conhece a música, de tão bem costurada.
Kevin Shortall, dos vocais e do violão, explicou a preferência do ritmo nordestino para misturar Brasil e Irlanda. "Historicamente, os dois países não tiveram uma comunicação musical. Mas a estrutura da música nordestina e irlandesa têm muito em comum. É o que a gente chama de música modal, que é um tipo de música muito mais antigo, que precede a clássica europeia." Daniel Sinivirta, flautista, se divertiu ao comentar a similaridade dos sons. "Tem algumas músicas irlandesas de uma artista chamada Sharon Shannon que brasileiro ouvindo pode jurar que é um forró sendo tocado." Para ele, parece tanto que chega a confundir.
Rique Meirelles, (violino, viela de roda, vocal) apontou que o repertório da banda ainda possui a maior parte irlandesa. "Ele ainda não tem tanto de Brasil quanto a gente gostaria. A gente escolhe muito a dedo o que vai ter de brasileiro, e o que a gente escolhe, sempre puxa pro baião." Asa Branca, Feira de Mangaio e Anunciação ficam mais espetaculares com flautas e violinos do que você imagina. No site oficial da banda, há canções para baixar gratuitamente.
Como revela o nome, as Irish Drinking Songs possuem o costume de levarem letras para beber e dançar, e o Circo Voador dançou ao som das divertidas canções originais "Estamos Todos Bêbados" e "Se Eu Cair Não Me Levante". Durante a apresentação, Kevin brincou sobre o assunto: "nem só de beber muito vivem as canções da Irlanda. Também temos músicas sobre matar os ingleses. Aqui vai uma sobre matar os ingleses." Logo em seguida, Rique completou: "nada contra os ingleses".
E realmente, não há nada contra eles. Isso porque Rique é um admirador do trabalho de Ed Sheeran, que no último álbum, Divide (÷), levou influências irlandesas notáveis às canções "Galway Girl" e "Nancy Mulligan". A inclusão do folk na música pop leva o gênero ao gosto popular, e o violinista é a favor da iniciativa. "Eu adoro, sempre gostei. Gosto muito de The Corrs, que já faz isso há muitos anos. Começaram a mesclar pop com influências folk irlandesas e acho que funciona muito bem, porque abre portas pra uma galera que não conhece essa sonoridade."
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Kevin, Daniel, Assis e Rique, da Café Irlanda[/caption]
Passado o Saint Patrick’s Day em março, a banda, que tocou no Circo Voador pela terceira vez, tem conversado sobre o planejamento do álbum, que está nos planos para o final de 2017/início de 2018.
O casal Mariana Amaral e Ricardo Sul, já foi para a Lapa com boas expectativas. "Já fomos em dois shows da Suricato… um e meio. Um da banda e um só do Rodrigo, um especial. A gente já ouviu falar da OutroEu. Estamos com esperança de gostar das outras, pra conhecer mais", disse Mariana. As fãs de OutroEu, Amanda e Letícia, vieram de longe para ver o concerto. "A Suricato eu já conhecia duas músicas e amei o show deles", disse Amanda.
Ao fim do show, os três grupos se reuniram no palco para apresentarem juntos a canção "Eclipse Oculto", de Caetano. É possível perceber que nosso folk carioca tem inúmeras referências de vários lugares do mundo. É como diz Rodrigo Suricato, somos um povo "estrogonofe com feijão" - feito de misturas. Na música, essa mistura têm resultado em um delicioso banquete.